Ligação e Potencialidades das novas tecnologias para uma melhor cidadania


Para se entender quais as vantagens e desvantagens inerentes aos conceitos que vão ser estudados (novas tecnologias e cidadania), é necessário definir cada um deles em primeiro lugar.
A palavra tecnologia deriva etimologicamente dos termos grego tekne que significa arte ou técnica, e logos que significa estudo. Desta forma, a palavra tecnologia consiste num conjunto de conhecimentos, técnicas, métodos e instrumentos aplicados a um determinado ramo de atividade, de modo a permitirem o aproveitamento prático do conhecimento científico (Blanco & Silva, 1993, pp. 37,38). As novas tecnologias são consideradas as mais recentes aplicações de conhecimentos científicos na resolução de problemas e daí muitas vezes, a tecnologia ser usada como sinónimo de ciência aplicada.
As principais vantagens associadas às tecnologias são a eficácia e a eficiência porque melhoraram a qualidade de vida das pessoas, na medida em que, hoje em dia, conseguimos realizar muitas mais atividades e de forma muito mais célere.
O conceito de cidadania consiste no conjunto de ações que são exercidas na qualidade e direito de cidadão, no comportamento próprio de um cidadão exemplar e no conjunto de cidadãos de uma nação. A cidadania deve ir além do reconhecimento dos direitos e deveres dos cidadãos e levar também ao cumprimento dos mesmos (Gentili e Alencar, 2001 citado por (Silva, 2014)). Tem como principal objetivo melhorar o bem-estar público e estas ações devem ser responsáveis, pacíficas, auto-reguladas e imprescindíveis para que se consiga o bom funcionamento de uma democracia. A noção de cidadania foi evoluindo ao longo dos tempos devido à história, ideologias e conceitos que hoje em dia já se encontram ultrapassados (como por exemplo, a discriminição entre homens e mulheres).
A relação entre a Educação e a cidadania deve ser indispensável porque a Escola para além de ter o objetivo de formar as pessoas a nível intelectual, também as deve formar a nível pessoal (fomentando o pensamento crítico, democrático e criativo, a pró-atividade, a responsabilidade e a solidariedade).
A tecnologia, por si só, não chega para tornar o processo educativo mais eficaz. Para isso, é necessária cooperação entre o Homem, o ambiente, a Educação e a Tecnologia  (Blanco & Silva, 1993, p. 39). Por outras palavras, é preciso que exista preocupação por parte do Homem em adaptar a Tecnologia ao tema em questão (neste caso, a Educação), no meio ambiente adequado. Se por um lado, educar é “fazer o homem”, a Tecnologia propõe fazê-lo “melhor” e de forma eficaz (Sarramona, 1986, p. 9).
            As tecnologias podem ser usadas para melhorar a cidadania e o seu funcionamento. Por exemplo, no Rio de Janeiro foi criada uma ONG chamada de “Viva Rio” que tem como uma das missões, apostar na inovação para dar oportunidades a quem não teve acesso ao ensino ou não encontrou nele as ferramentas necessárias para se desenvolver. O grande objetivo é, através de parcerias e formas alternativas de financiamento, ajudar a desenvolver novas tecnologias para inclusão social e para a valorização da diferença, trazendo a escola para fora do edifício e tornando-a mais interessante e apelativa. Esta ONG criou, também, um aplicativo para ajudar pessoas desempregadas a voltarem ao mundo do trabalho[1].
            Dentro da sala de aula é comum usar-se o moodle como plataforma digital para recolher informações e enviar trabalhos. No entanto, o moodle pode ser um meio para melhorar a cidadania, visto que, segundo Flor e Escola (2009, p. 84), esta plataforma “permite-nos criar espaços de apoio a disciplinas curriculares e extracurriculares e/ou possíveis projetos a distância” e ainda “criar espaços de interesse para os encarregados de educação e, deste modo, entusiasmá-los para a orla da educação dos seus filhos”. Uma vez que é uma plataforma online, o aluno pode trabalhar a partir de casa e aprender autonomamente, e como funciona como um open space, existem certas regras sociais que têm de ser entendidas e cumpridas para o seu bom funcionamento, bem como, em debates e fóruns, os alunos desenvolvem o pensamento crítico e estratégias de análise da informação para responder ao pedido. Estas características levam a uma melhoria na cidadania dos alunos, dado que não é apenas formação intelectual, mas também social. “O interesse por esta plataforma justifica-se por envolver princípios pedagógicos sólidos e permitir uma prática exterior à própria escola que favorece a diminuição do insucesso escolar em detrimento do aumento da qualidade da educação” (Flor & Escola, 2009, p. 85). O grande problema é que nem todos os professores estão preparados ou tiveram formação para usar o moodle como algo interativo e acabam por usar apenas as suas funções mais basilares.
O projeto Iclass[2] arrancou em 2015 com uma turma pioneira no Colégio Vasco da Gama. Este projeto concilia a tecnologia com a autorregulação das aprendizagens, utilizando o trabalho autónomo e diferenciado. Ou seja, consiste no aproveitamento das vantagens inerentes às tecnologias, ensinando as crianças a serem mais pró-ativas e autodidatas. Com esta ideia promove-se o sentido crítico em contraste com o ensino tradicional e ainda se desenvolve a capacidade de adaptação dos alunos.
            O desenvolvimento deste projeto baseia-se em 3 áreas fundamentais que formam o PET- Pedagogia, Espaço e Tecnologia. A pedagogia implica um projeto e uma organização curricular com objetivos claros na utilização das ferramentas digitais. Também utiliza uma organização tendo em conta as características e o perfil do aluno do séc. XXI, promovendo a capacidade de adaptação. Para que este projeto resulte, é necessário existir interdisciplinaridade, cruzamento de currículos, reuniões semanais e avaliações frequentes de toda a comunidade educativa. Esta área é concretizada através de Pedagogias assentes na autorregulação das aprendizagens, trabalho de projeto e coaching.
O Espaço organiza-se em 4 áreas: o espaço de reflexão, o espaço de pesquisa, o espaço de trabalho de equipa e o espaço de apresentação. Toda a sala foi adaptada para cada uma das áreas e prevalece o conforto e o bem-estar de quem a frequenta, para que o processo de ensino-aprendizagem decorra de forma motivante. Esta remodelação torna obsoleta a organização espacial tradicional.
A Tecnologia pressupõe o uso de tablets, em que cada aluno compra o seu usando a estratégia “bring your device”, o uso do ActivePanel e a parede de escrita. Os manuais foram substituídos pela plataforma “Aula 20” e outros softwares interativos. Apesar de não deixarem de escrever, o caderno diário, os manuais escolares e a mochila escolar são conceitos desconhecidos para esta turma, visto que o material que precisam está a um “clique” de distância.
Segundo Bastos (2017) “Não devemos olhar para a tecnologia como um fim, ela é um meio para nós atingirmos um fim e deve ser utilizado da forma mais correta”, ou seja, esta escola por usar tecnologias avançadas não implica que irá ter sucesso garantido, o sucesso está ligado à maneira como o professor se apropria do material e o desenvolve com alunos. Por exemplo, nesta escola utiliza-se a gamificação para estimular o interesse e a motivação dos alunos, mas se o professor não for um mediador no processo ensino-aprendizagem a mensagem não irá passar, sendo uma atividade meramente lúdica.
“A ideia de ‘eu tenho que dar matéria’ é uma ideia completamente ultrapassada. O aluno é que tem de aprender, eu não dou nada. Eu dou um conjunto de regras, ajudo, direciono, e ele chega ao fim a que se propôs.” (Bastos, 2017). Ou seja, este professor reforça, ainda, o papel do aluno como agente principal no ato de aprender e o do professor como um criador de situações de aprendizagem que facilitem o acesso ao conhecimento e como um promotor do trabalho autónomo dos alunos e da construção de métodos de estudo.

Referências

Bastos, V. (18 de Fevereiro de 2017). Metodologias ativas. Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Obtido em 22 de Outubro de 2017, de http://erte.dge.mec.pt/seminario-nacional-de-ambientes-educativos-inovadores-registos-video
Blanco, E., & Silva, B. (1993). Tecnologia educativa em Portugal: conceito, origens, evolução, áreas de intervenção e investigação. Revista Portuguesa de Educação, 37-55.
Flor, P. Q., & Escola, J. J. (2009). O papel das novas tecnologias na construção da cidadania: a plataforma Moodle no 1º ciclo do Ensino Básico. Portugal: Universidade de Trás-os-Montes.
Sarramona, J. (1986). Sistemas no presenciales y tecnologia educativa. Castillejo y otros. Tecnologia educacional. Barcelona: CEAC.
Silva, E. G. (2014). Relações entre educação, cidadania e exclusão. Curso de especialização fundamentos da educação: Práticas Pedagógicas Interdisciplinares. Brasil: Universidade Estadual da Paraíba.

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